Vazanteiros

Os vazanteiros são um povo com forte influência indígena, quilombola e ribeirinha que vive historicamente às margens do Rio São Francisco, construindo uma intrincada relação com seus ciclos e dinâmicas. Esse profundo conhecimento influencia sua cultura, seus costumes, suas técnicas de cultivo. O rio, mais que um corpo de água, é visto e entendido como uma entidade, um lar, um parente. Essa relação com o São Francisco é bem representada na apaixonada declamação que faz Seu Lindemberg, vazanteiro da Ilha de Pau Preto, no vídeo abaixo.

O São Francisco é um dos rios mais importantes do país. Possibilita o transporte de recursos e pessoas, a irrigação para agricultura e pecuária, além de ser responsável por dois terços da água doce disponível para o Nordeste. Estudos mostram que a ocupação humana do rio São Francisco remonta pelo menos dois mil anos, chegando a oito mil anos de história. Com a chegada dos diversos povos e culturas que constituem o Brasil atual, essa ocupação foi se diversificando, mas ainda construindo em cima desses milênios de saberes acumulados. Diante dessa diversidade, não é incomum a identidade vazanteira conviver simultaneamente com outras.

Os vazanteiros, enquanto comunidades ribeirinhas, expressam um complexo cultural e político muito mais amplo do que um primeiro olhar nos mostra. Naquela porção do território, encontramos vazanteiros, mas também pescadores, quilombolas e indígenas. Como também grupos que se expressam como lavradores, posseiros, sem terra, camponeses, assentados, agricultores familiares. Em outros casos, expressam múltiplas identidades como pescadores, vazanteiros, quilombolas, e também como lameiros, beiradeiros, barranqueiros, identidades que coexistem e que estão relacionadas com suas práticas, saberes e conhecimentos expressos em suas territorialidades que se encontram em um contexto de enorme tensão.

Com um conhecimento profundo sobre as dinâmicas do rio e de sua influência sobre as áreas ribeirinhas, as formas de apropriação do território pelos vazanteiros formam um complexo sistema de exploração das potencialidades dos diversos ambientes presentes nas terras baixas, em constante mobilidade, junto com as terras altas. Sendo que as formas de regulação do uso e ocupação do território estão assentadas no que a antropóloga Luz de Oliveira denominou de “sistema de direitos combinados”. Um sistema que está assentado sobre o rio, entendido como “um parente”, e cuja territorialidade expressa nas dinâmicas do rio, considera também a própria mobilidade das populações que aí vivem. O direito de uso das terras está sempre aberto “aos chegantes” que o adquirem pelo trabalho ou pela compra do direito (ou do trabalho) de outrem que o abriu.

Foram nas “terras baixas” que os vazanteiros desenvolveram seus modos de vida ao longo dos últimos séculos, embora eles não ficassem reclusos a ela, como ainda acontece em algumas comunidades. O uso das terras baixas era associado ao das “terras altas”, de caatingas ou de cerrados, onde construíam suas moradias mais definitivas, quintais, lavouras de sequeiro e criavam os animais em regime de solta. No entanto, com o avanço das fazendas, as famílias foram sendo encurraladas nas “terras baixas” e, em outro momento, restaram apenas as ilhas como último refúgio. Como fala o vazanteiro Cícero, os fazendeiros passaram a cobiçar as terras de vazante marginais ao rio, “porque aqui é uma riquezona, aqui a gente tem comida”.

Vazanteiros em Movimento

Quando foi realizado, em 2006, o Primeiro Encontro Interestadual de Homens e Mulheres Vazanteiras do São Francisco na Ilha da Ingazeira iniciou uma movimentação das comunidades vazanteiras na luta pelo direito de permanecer no lugar, acionando para isso direitos étnicos. Movimentação que surgiu como enfrentamento a duas ondas de expropriação vivenciadas pelas comunidades em pouco mais de trinta anos.

A primeira, iniciada nos anos 1960 e promovida pelo processo de modernização da agricultura instituída pelos governos militares que tomaram o poder em 1964, quando ocorreu a expropriação das terras comuns e a formação de latifúndios vinculados ao agronegócio. 

A segunda ocorreu a partir dos anos 2000 como resposta à pressão de organismos financiadores internacionais que passaram a exigir a compensação ambiental pela abertura de extensas áreas de mata seca pela implantação do Projeto de Irrigação do Jaíba. Uma estratégia de reordenamento ambiental que criminalizou as gentes vazanteiras.

Enquanto a primeira “encurralou” as comunidades nas estreitas faixas ao longo do rio ou nas ilhas, a segunda transformou as áreas onde estavam a viver como parques ou como áreas de preservação permanente – APPs.

Foi na Serra Azul, hoje transformada em Reserva Biológica, que, em 1967, Saluzinho fez o enfrentamento ao fazendeiro Oswaldo Antunes que se valeu da institucionalidade da ditadura civil-militar de 1964 para desalojá-lo. Em seguida, chegou a Ruralminas, como informou um dos últimos posseiros que ainda vive lá, para regularizar as terras até então ocupadas pelos nativos, etapa fundamental para implantação de um projeto em bases capitalistas. Todos os nativos e posseiros foram expulsos. 

Atualmente, a área ocupada exclusivamente para irrigação é de 53.810 ha. Além da grilagem oficial das terras e do desmatamento em larga escala da mata seca, Cícero aponta outro fato que ele considera muito grave: os irrigantes usam de forma intensiva as águas do rio São Francisco que se encontra em processo final de exaustão. Os irrigantes, deslocados da natureza, não têm noção de onde vem a água, de como está o rio que sustenta as suas atividades cuja produção está vinculada ao consumo de recursos sem limites. 

Pescador da comunidade vazanteira de Pau Preto, no município de Matias Cardoso em Minas Gerais. Fotografia de João Roberto Ripper

A partir de sua organização através do movimento social “Vazanteiros em Movimento”, as comunidades iniciam um processo de demarcação autônoma de seu território, com apoio do projeto Cartografia Social Brasil Central, desenvolvido pela Unimontes/PPGDS/NIISA/CAA.

Em um primeiro momento, a cartografia evidenciou que, em um percurso de 444 km de rio, entre Pirapora e Carinhanha, as comunidades vazanteiras incidem em pelo menos 125 km do rio, desde a Ilha do Amargoso, entre os municípios de Januária e Pedra de Maria da Cruz até a Ilha da Ingazeira – Escuro, que fica divisa de Minas Gerais com a Bahia. O que representa 28% dessa porção. São cento e vinte e cinco quilômetros de rio abrangendo 41 ilhas ou localidades onde vivem comunidades vazanteiras e suas múltiplas identidades. Para conhecer melhor a luta dos vazanteiros e suas conquistas, acesse o blog Vazanteiros em Movimento, onde este processo foi documentado. 

A cartografia serviu para a construção do primeiro entendimento coletivo das territorialidades da articulação Vazanteiros em Movimento e se apresenta como instrumento de afirmação de seus direitos e de luta contra as diversas investidas que sofrem. Os vazanteiros lutam não só contra a negação de direitos, mas também pelo reconhecimento de suas formas de ser e estar no mundo, disputando aquilo que lhes é de direito.

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