Caatingueiros

Eu, desde pequeno, desde pequeno eu ouvia o meu pai e o meu avô falarem, o povo daqui é caatingueiro, e quem vem de lá é geraizeiro. E naquela época era assim, o povo antigo não tinha cerca, o pessoal criava gado na solta e tinha as malhadas. Ele não se lembra desta época, só de ouvir falar. Mas ele lembra da época que as terras foram liberadas para usucapião e todo mundo foi cercando as terras e fazendo os documentos (Toninho, caatingueiro, 2018).

Os sopés da Serra Geral são situados em meio a duas unidades geomorfológicas bem distintas. Na porção oriental, os altiplanos, onde os gerais são dominados pelos cerrados e fazem transição com a Mata Atlântica. Ao descer a serra, as caatingas dominam e, à medida que se dirige à porção ocidental em direção às planícies sanfranciscanas, o predomínio de uma ampla faixa de transição de caatinga com a mata seca. A identidade do povo caatingueiro é constituída a partir da relação entre esses diferentes biomas e da interação entre os povos que os habitam, em especial os povos da caatinga e dos gerais.

São onze os municípios em que as comunidades caatingueiras dos sopés da Serra Geral encontram-se inseridas: Catuti, Espinosa, Gameleira, Janaúba, Mamonas, Mato Verde, Monte Azul, Nova Porteirinha, Pai Pedro, Porteirinha e Serranópolis de Minas. Esses municípios ocupam uma área de 12.407,63 km2 (ou 1.240.763 ha). Sendo que onde tem a predominância das comunidades caatingueiras abrange uma área de 7.628,60 km2 (ou 762.860 ha).

Essa porção do território está inserida na região semiárida de Minas Gerais com precipitação pluviométrica média anual de 750 mm, apresentando os meses mais secos de junho a agosto, sendo frequentes os veranicos que podem ocorrer em meio à estação chuvosa, estacionalidade que frequentemente cria sérios problemas para a agricultura e pecuária. A duração da estação seca costuma ser superior a seis meses e a umidade relativa do ar pode atingir valores inferiores a 15%, principalmente nos meses de julho e agosto. O clima predominante é o tropical de savana, inverno seco e verão chuvoso, o que a coloca em uma das áreas mais vulneráveis de Minas Gerais em função do aquecimento global. Por conta disso, a questão ambiental é considerada como uma das temáticas de maior interesse da ação dos caatingueiros.

O cenário de crise ambiental dos anos 1980/1990 não estava colocado para os habitantes dos gerais conhecidos como geraizeiros, que desciam a serra em tropas de animais para venderem seus produtos nas feiras e mercados de Porteirinha, Mato Verde, Monte Azul e Espinosa. O comércio era intenso, vendiam ou trocavam seus produtos com os habitantes das caatingas a quem eles denominavam de caatingueiros. As identificações vinculadas aos ambientes onde moravam propiciaram desde o passado a caracterização étnica dessas gentes cujas fronteiras se tocavam enunciando politicamente suas etnicidades.

Por um longo período, a região de caatinga, além da tradição de criação de gado, especializou-se também na produção de algodão e mamona, produtos que eram exportados ou para a Bahia ou para outras regiões do Norte de Minas ou mesmo para o Sudeste. Por ser a economia dos caatingueiros mais monetarizada, os geraizeiros também desciam a serra para se empregar nas atividades de lavoura, que demandavam muita mão de obra. Apesar das distintividades que marcavam essas populações, as relações estabelecidas avançavam em outros aspectos da vida social. Muitas vezes as migrações temporárias tornavam-se permanentes, ampliando-se por relações de casamento e de compadrios estabelecidas nas dinâmicas de intercâmbios.

a nossa origem é dos gerais, até a água que corre aqui vem dos gerais” (Toninho, município de Porteirinha, em entrevista, 2018).

A história da agricultura caatingueira não foi sempre em torno da produção especializada. Muito pelo contrário. A conversa com os interlocutores, antenas da Articulação Rosalino, apontou-nos que antes da expansão da monocultura do algodão a agricultura caatingueira contribuía com a produção de alimentos, com a criação do gado, aves e porcos, além do algodão e da mamona. Havia, inclusive, o uso de sementes crioulas e o plantio de arroz nas áreas de alagadiço. No entanto, com a transformação da produção local, as extensas áreas de caatinga foram intensamente desmatadas e degradadas no auge da expansão da monocultura do algodão. 

o meu avô colhia era casa cheia de arroz. O rio não corria, mas tinha baixa. O pessoal colhia, comia, era mais para o consumo, vendia pouco arroz. Naquele tempo vendia era um gado, um porco, um frango caipira” (Ana Rosa, localidade de Malhada dos Bois, em entrevista, 2018). 

A retomada de uma agrobiodiversidade na Caatinga

Os parcos rios e córregos que atravessam a região têm origem na Serra do Espinhaço. Se, em outros tempos no período da seca, os rios e córregos mantinham água nos poços e lagoas, atualmente a grande maioria fica seca completamente. Nesse contexto, centenas e centenas de famílias e comunidades recorrem aos encanamentos que foram implantados para captação de água ao longo da Serra Geral. Chegam a percorrer mais de trinta quilômetros desde a sua captação nas escarpas do Espinhaço de rios como o Serra Branca ou Tabuleiro. Nesse sentido, os parques estaduais Serra Nova e Caminhos dos Gerais constituem para os caatingueiros uma maior garantia de proteção das águas que descem das serras. 

No entanto, a implantação de projetos de mineração no Espinhaço, como o da extração de ouro da antiga Vale do Rio Doce, atualmente explorado pela empresa canadense Carpathion Gold, em Riacho dos Machados, ou na exploração do minério de ferro, quartzo, areia, granito e pedras preciosas, passam a entrar na agenda de luta dos agricultores, dos sindicatos de trabalhadores rurais e outras organizações, que questionam os alegados benefícios de geração de renda e empregos.

A partir da conquista da liderança do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Porteirinha, o trabalho avança para ações de desenvolvimento local e com a formação de monitores em agroecologia, os quais passam a discutir e disputar propostas nos âmbitos dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável – CMDRS. É quando um conjunto de práticas agroecológicas desenvolvidas na escala comunitária e familiar – produção de sementes de milho e sorgo, criação de pequenos animais, apicultura, pomares agroflorestais – trazem a discussão da valorização da (agro) biodiversidade associada aos sistemas caatingueiros, além da necessidade de considerar o mercado e seus arranjos produtivos. Inicia-se um conjunto de atividades de pesquisa e desenvolvimento que tem como meta a transição da cotonicultura convencional para sistemas agroecológicos de produção, ampliando a sustentabilidade dos agroecossistemas nativos. Esses sistemas eram conjugados com outras ações estimuladas a partir da constituição da Associação Casa de Erva Barranco Esperança e Vida – ACEBEV – que, atuando no campo da saúde e da nutrição, resgata os valores e saberes da produção tradicional, da alimentação sertaneja e o uso das plantas medicinais e frutíferas da caatinga.

Compartilhe nas suas redes!!

Apanhadores de Flores

Saiba mais

Caatingueiros

Saiba mais

Geraizeiros

Saiba mais

Quilombolas

Saiba mais

Tuxás

Saiba mais

Vacarianos

Saiba mais

Vazanteiros

Saiba mais

Veredeiros

Saiba mais

Xakriabás

Saiba mais

Fique por dentro das últimas notícias do Museu Vivo!

Cadastre-se e faça parte da nossa lista. Por lá, você irá receber em primeira mão as notícias do Museu Vivo, dos territórios e dos povos tradicionais de Minas Gerais.